Além de jornalista e escritor, Cornélio Pires foi pioneiro ao gravar músicas caipiras em disco de vinil e levou shows pelo interior de SP
27/07/2026
(Foto: Reprodução) Cornélio Pires, 142 anos: série de reportagens do g1 mostra a vida do artista
O talento de Cornélio Pires como comunicador é incontestável. Além de se destacar como jornalista em grandes coberturas e de aproximar a literatura do cotidiano do brasileiro no início do século XX, o artista nascido em Tietê (SP) também exerceu forte influência na música brasileira.
A influência foi tão grande que, segundo historiadores, Cornélio Pires é considerado o primeiro artista a gravar uma música caipira em disco no Brasil.
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Para celebrar o legado de Cornélio Pires, que nasceu em 13 de julho de 1884, o g1 mostra, nesta terceira e última reportagem da série sobre os diferentes lados de Cornélio Pires, como ele ajudou a transformar a música caipira em patrimônio cultural do país.
Pedro Massa, presidente do Instituto Cornélio Pires em Tietê, conta que a "veia artística", na verdade, é uma teia familiar. O cantor possui relação direta com Tarsila do Amaral, uma das pintoras e desenhistas mais reconhecidas da história nacional.
"A mãe do Cornélio era a prima da mãe da Tarsila. A veia artística é uma teia da família. Ela morava em Capivari (SP), mas ele rodou em muitas cidades. De Tietê, ele passou por Sorocaba, Itapetininga, Botucatu, Itatiba, São Paulo e até o Rio de Janeiro", revela.
Pedro explica que, apesar de Cornélio ter gravado muitas músicas, boa parte do acervo acabou se perdendo ao longo do tempo. Como admirador, ele foi o responsável por resgatar o acervo, digitalizá-lo e colocá-lo diretamente nas plataformas de streaming.
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"Existia um 'hiato' em cima do trabalho do Cornélio. Ele gravou muitos discos e muitas músicas, mas, cadê esse material todo? O trabalho que o instituto fez foi de recuperar tudo e colocar nas plataformas. Foi importante ter reconstruído todo o catálogo, justamente para apresentá-lo às novas gerações", detalha.
Cornélio Pires durante apresentação no início do século XX
Acervo/Pedro Massa/Instituto Cornélio Pires
Ana Luísa Pires, sobrinha neta de Cornélio, afirma que só conseguiu ter acesso ao material musical do parente depois de todo o trabalho feito por Pedro e pelo instituto. Lembrar o legado do artista era comum nas reuniões de família, mas, boa parte das canções do "bandeirante do folclore paulista" estava com paradeiro desconhecido.
"Eu só consegui ouvir a voz do Cornélio por meio do trabalho do Pedro. Eu conhecia a literatura e a família cantava, mas nunca tínhamos conseguido acesso a esse material. Quando ele conseguiu passar para o digital, aí eu consegui descobrir", relata.
Segundo o presidente, o motivo do acervo de Cornélio ter ficado perdido por tanto tempo é a contextualização histórica do país à época. Ele afirma que as músicas que foram lançadas contemporaneamente ao tieteense não atravessaram gerações.
"Cornélio faz parte da primeira geração da moda de viola no Brasil. O rádio também não era um veículo de comunicação que 'havia andado' na época. Com a entrada do governo Vargas, anos depois, o país mudou o olhar de enxergar a vida. Os brasileiros voltaram os olhos ao social e o cultural ficou para trás", opina.
Junto a isso, Pedro também justifica o motivo do desaparecimento com a modernização da música. As estruturas musicais acabaram se transformando rapidamente, com refrões melódicos e rimados.
"Não atravessaram porque a construção musical melhorou bastante. As pessoas aprenderam a fazer um refrão legal na música e, no período de Cornélio, era o começo. As modas de viola eram folclóricas, tocadas em sítios, comemorações e festas da comunidade caipira", explica.
Entretanto, o artista foi um dos primeiros da história do país a ter um olhar voltado ao lado "comercial" da indústria musical. As modas de viola eram consideradas grandes demais para caber em um disco de vinil e, para vender, Cornélio conseguiu reduzi-las a três minutos.
"Transformar a moda de viola em um produto 'enlatado' era complicado, e Cornélio fez isso. As modas antigas dos caipiras são bem grandes, ao contrário das dele, porque ele tinha três minutos para fazer caber em um disco de vinil. Ele teve que adaptar tudo, e é aí que vem a mão mágica dele como produtor", destaca.
Cornélio Pires foi cantor, escritor e jornalista
Diogo Del Cistia/g1
Segundo Pedro, o senso de produção de Cornélio vinha justamente pelo fato dele ter trabalhado em outros ramos da arte, incluindo na comédia. Tal visão, de acordo com ele, acabou sendo responsável por colocar o artista como um dos mais influentes da cultura caipira na música.
"Quando Cornélio mostrou os caipiras para São Paulo, ele também estava mostrando São Paulo aos caipiras em contrapartida. A partir daí, quando os caipiras começaram a usar os elementos urbanos e contemporâneos nas letras e nas modas, acabou mudando de moda de viola para sertanejo."
Pedro destacou, ao longo da série de reportagens feita pelo g1, que o nacionalismo era uma grande característica de Cornélio como jornalista e escritor. Na música, não era diferente: ele decidiu gravar a música caipira como uma forma de luta contra as canções estrangeiras que dominavam as rádios à época.
"Ele começou a perceber que tinha muita música de fora nas rádios, principalmente tangos argentinos. Ele decidiu gravar o caipira nas rádios justamente por causa disso, pela falta de material nacional sendo reproduzido", compartilha.
Cornélio está sepultado em Tietê, no interior de São Paulo
Diogo Del Cistia/g1
Com os discos, Cornélio decidiu sair em turnê por toda a região então conhecida como "Alta Sorocabana", que era composta por cidades atendidas por ferrovias na região de Sorocaba. Ele fez shows por cerca de 15 anos, com o intuito de "pregar" a cultura caipira afora.
"Cornélio trabalhou bastante com shows, ficando nos palcos por cerca de 15 anos. Depois, no final da década de 1920, ele resolveu trazer essas apresentações para os discos de vinil. A coleção de discos tem piadas, imitações, modas, etc. Mostra o quanto ele era um artista versátil. Mas, além dele gostar da cultura, era tudo na intenção de trazer a comunidade caipira de volta aos holofotes", descreve.
"Ele achava que a cultura estava perdendo um espaço e fazer isso foi muito positivo para ele. Cornélio foi uma ferramenta facilitadora da cultura para o povo, até porque, o Brasil era muito rural naquela época. Ter acesso à cultura e à educação naquele tempo era para poucos. Ele era um popstar", completa.
Enterrado de pijama e descalço
Túmulo onde está sepultado Cornélio Pires, no Cemitério Municipal de Tietê (SP)
Diogo Del Cistia/g1
O artista, depois de ter se consolidado como escritor, jornalista, produtor musical e fiel ao espiritismo, morreu na capital paulista em 17 de janeiro de 1958, em decorrência de um câncer na garganta. Ele foi enterrado no Cemitério Municipal de Tietê, de pijama e descalço a pedido.
“No meio dos caminhos da vida, Cornélio conheceu o kardecismo, que tem o altruísmo como uma das principais bandeiras. As pessoas viviam às custas dele, pois ele ajudava todo mundo e estava bom assim. Quando ele morreu, ele pediu para ser enterrado assim pois doou todas as roupas”, declara Pedro.
Ao g1, Ana Luísa comenta que Cornélio foi, também, responsável por fundar a Casa dos Meninos, um local de acolhimento para jovens em situação de vulnerabilidade social. O local funciona até hoje e está em atividade desde 1957, um ano antes da morte do artista.
“A intenção era que fosse uma escola técnica, mas ela é muito legal. Hoje, ela dá assistência ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e é um braço da justiça restaurativa de Tietê. Antes, ela era conhecida como Granja Bom Jesus”, detalha.
Na visão de Maria Osira Martim, também sobrinha-neta, ser uma parente direta de Cornélio Pires é sinônimo de orgulho. Segundo ela, o tio-avô é um cartão de visita de Tietê.
“Eu tenho muito orgulho de ter um parente artista que ficou famoso com tanta coisa bacana que ele fez. Todos os lugares que eu vou e perguntam da minha família eu falo que sou parente do Cornélio Pires. As pessoas acham muito legal”, comenta Maria.
“Nós temos um compromisso, enquanto família, que é ajudar. Faço sempre questão de estar em tudo que é relacionado a ele. Temos que acompanhar e lutar para manter o legado de uma figura tão importante para todos nós”, finaliza Ana Luísa.
Ana Luísa (à esquerda) e Maria Osira (à direita) são sobrinhas-netas de Cornélio Pires
Diogo Del Cistia/g1
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